Comportamento, ciência, tecnologia, direito, política, religião, cinema e televisão, alguma controvérsia, algum bom senso, e um pouquinho de besteira, para dar um gostinho...

4 de jan. de 2017

Momentos

Eu sou ateu. Por muito tempo fiquei entre o agnosticismo, que é confortável e a posição preferida entre quem não quer se fixar nesse assunto, e o ateísmo, que sofre preconceito e é considerado falacioso por quem prega o "não ter certeza de nada". Eu até pensei em me definir diferente, tentando ser mais "aberto", mas não dá. A ausência completa de provas que me faz ateu quanto a divindades nórdicas, gregas, romanas, o Monstro de Espaguete Voador e o Bule de Chá Espacial é a mesma que me faz ateu perante o cristianismo, judaísmo e islamismo. Seria hipócrita ser agnóstico a essas idéias e não as outras, como se elas não tivessem o mesmo peso, só pela quantidade absurda de pessoas que acreditam nas últimas. Semanticamente, eu na verdade sou ateu agnóstico, pois sei da minha limitação (e da limitação humana) em provar a existência de divindades, mas isso é difícil de explicar numa conversa informal. Ateu parece até mais agressivo, no estilo: "não tente me convencer e continuamos amigos". Prefiro assim, pois nem todas as pessoas tem a capacidade intelectual de discutir esse assunto, e ter suas crenças atacadas, sem personificar suas idéias e sentir-se ofendidos, levando ao conflito.

Devido a essa posição, e tentando não participar da cultura da "pós-verdade" atual, evitando assim criar uma câmara de eco social (Veritasium explicou isso MUITO bem), eu participo em diversas conversas. Nestas, volta e meia surge a pergunta: Mas se você não acredita em nada, qual o objetivo de viver? Qual a razão para levantar da cama?

Eu pensei MUITO sobre isso. Me considero uma pessoa psicologicamente estável e ainda assim, por muitos anos, isso me causou uma certa ansiedade. É uma resposta muito complexa. Aconteceu o que por vezes deve acontecer com vocês também. Você SABE a resposta, mas não consegue colocar ela em palavras. É difícil. Além disso, é uma pergunta muito pessoal. Muitas pessoas preferem a resposta da religião pois é terrível pensar nisso. É mais fácil aceitar que depois de morto, tudo será explicado, resolvido, e portanto, não pense muito nisso agora, mas pague o dízimo.

Essa semana, caminhando com a minha Schnauzer Miniatura em um dia de sol extremamente bonito (embora quente, muito quente), eu tive uma mini-epifania. Foi muito estranho. Eu pensava exatamente sobre isso, e uma resposta me veio. E ela é simples, não só isso, mas particularmente, ela me tirou um peso, eu PERDI a ansiedade sobre aquela pergunta terrível. Me senti satisfeito com a resposta, e acho que consigo escrever e transmitir ela. Vamos lá.

Nossa vida é feita de momentos. A temporalidade nos impede de ver que tudo vai passar, ou não vai importar mais. O passado, o presente e o futuro são mais que conceitos. O passado são lembranças, o presente é que cria novas lembranças e o futuro são possibilidades. Então, qual o motivo de levantar da cama? Ir trabalhar? Comer, correr, amar?

Para mim, o objetivo é criar momentos. Momentos que fazem tudo valer a pena. Momentos felizes, planejados ou acidentais. Um beijo, um abraço, um aperto de mão. Uma despedida após um reencontro. Mudar de ares, um happy hour. Um churrasco com amigos. Aquela felicidade por ver os outros felizes, a empatia, ajudar e ser ajudado. Conversar, discutir, mudar de opinião e ver que cresceu e melhorou. Olhar ao seu redor e ver o que você construiu. Patrimônio material e imaterial. Suas relações, amores, amizades. Seus feitos, erros e defeitos superados. Até o que de ruim acontece, mas prova que tem muita gente que se preocupa com você. Você marcou pessoas, criou laços estreitos e duradouros. Aquele jogo, aquele empreendimento, aquele projeto. Aquele tempo que você teve para você, para contemplar, ou mesmo jogar fora. Aquelas pessoas especiais.

Se você for religioso, pode aproveitar a comunhão, a convivência, a comunidade e a leveza do elevar espiritual. Se for ateu, pode aproveitar a sublime realização de viver uma realidade explicada cada vez mais em pormenores, e que permite a todos viver mais e melhor. A beleza de tudo, criado por seres humanos ou natural. Eu consigo entrar em uma igreja e sentir a sublime realização do potencial humano inspirado pelo divino, inventado (para mim) e mais real impossível (para o autor).

Esse para mim é o objetivo: criar momentos. E se eu puder, tentar aproveitar esses momentos, alongá-los, se jogar neles e viver intensamente. Mais ainda, compartilhar essa experiência com aqueles ao seu redor e absorver deles o suficiente para criar novos momentos. Fantástico.

Isso acontece no presente, sem ansiedade. É a pureza de se aproveitar o momento enquanto ele se desenrola.

Isso não acontece o tempo todo, e talvez por isso seja tão especial. Você não consegue perseguir esses momentos, mas consegue planejá-los, ou investir neles. Perseguir gera ansiedade e mata a leveza do sentimento espontâneo, mas planejar em si é um momento, e realizar é seu clímax.

E você, qual seu motivo?

19 de dez. de 2016

Egocentrismo e o trânsito

Quanto mais observo a sociedade, mais percebo que as pessoas em geral não notam a fragilidade e a beleza de nossas aglomerações humanas. A relativa paz em que vivemos é fruto de muita evolução, e ainda assim várias pessoas tentam destruir essa paz. Não só isso, nossas regras, implícitas e explícitas, parecem ser quebradas apenas pela rebeldia de ser "do contra". Eu vejo isso a cada dia, em todos os lugares, e isso me assusta. Chegou ao ponto do "normal" ser quebrar a regra, e não obedecê-la.

Cada indivíduo parece pensar apenas nele mesmo. A falta de empatia e bom senso é tanta que perco a esperança de melhoras pois novas situações absurdas se apresentam diariamente. No trânsito, na fila do supermercado, no trabalho, no estudo e na rua.

Pequenas infrações que atrapalham as vidas das outras pessoas e poderiam ser facilmente evitadas. Transgressões insignificantes que parecem se acumular em uma parede intransponível de mediocridade, egocentrismo e falta de educação.

E no trânsito? Meu nêmesis, o trânsito! Onde as pessoas liberam suas bestas interiores (sejam elas leões ou antas) e agem da maneira mais tosca possível. Criando situações perigosas, em total desconsideração pelo bem estar dos outros, sua segurança e integridade. Invadem pista contrária, não sinalizam, conversões erradas, manobras perigosas, trapalhadas diversas. Nunca ouviram falar em curvas em "L" (esqueceram da auto escola). Não sinalizam, ou pior, sinalizam errado. Não usam seus espelhos e não sabem as regras básicas de trânsito, como por exemplo, curvas a esquerda em vias duplas.

Dias atrás vinha eu em uma via preferencial, sinalizei que faria curva a esquerda (invadindo a pista de sentido contrário). Uma camionete trafegava no sentido contrário, e queria fazer também uma conversão a esquerda. Simples. Se os dois motoristas cuidarem suas velocidades, ambos podem cruzar-se e efetuar a conversão sem nunca esbarrarem. Mas esse senhor PAROU O CARRO em sua via, sinalizando COM A MÃO para que eu passasse a sua FRENTE (invadindo sua pista, ficando de frente com ele e interrompendo o trânsito na via). E ficou nervoso pois não aceitei fazer essa CAGADA no trânsito, buzinou e proferiu impropérios como SE ESTIVESSE CERTO!

Pessoas estacionando mal, fazendo manobras proibidas colocando todo mundo em risco, trafegando devagar demais, rápido demais, sem sinalizar, sem obedecer as regras. As regras estão lá por um motivo, para que TODOS saibam o que estão fazendo, possam antecipar os movimentos do outro e todos fiquem em SEGURANÇA!

Ser adulto


Estou beirando meus 35 anos, mas nunca me achei um adulto. Talvez por não me comportar como um "adulto" normal se comportaria muitas vezes, ou por achar o conceito todo de "adulto" um tanto hipócrita, e talvez até repressivo.

Mas algumas vezes, por momentos ou períodos inteiros, eu soube o que é ser um adulto. E consigo, por estes momentos, definir o que é ser adulto.

O primeiro momento foi intercalado. Foi quando decidi que precisava me sustentar e resolvi investir na única capacidade que tinha: a intelectual. Precisava usar isso ao meu favor, e fazer alguém me pagar para exercer uma profissão. Aí outros adultos me encorajaram e auxiliaram tremendamente a escolher o caminho. Decidi prestar concursos. Aí foi uma fase de estudo, muito estudo, noites passadas lendo conteúdos, dormindo até literalmente babar e manchar a folha impressa por jato de tinta. Aí prestar as provas e aguardar o resultado. Desse momento até eu ser chamado para exercer o cargo que ainda ocupo, eu sei que fui um adulto pelo stress tremendo que tomou conta de mim. A expectativa e a carga de responsabilidade autoimpostas que levaram a estudar mais do que a vontade. Nunca havia precisado chegar a esse ponto. Desde o ensino fundamental e médio, até pelo fracasso na primeira universidade e "levando" a segunda. Nunca foi necessário. Agora não só era necessário, era uma obrigação. E depois, quando aprovado, ao fazer os testes admissionais e assinar a posse, me senti um adulto, pela pressão de um novo trabalho e a sensação de que não sabia nada.

O segundo momento foi quando minha esposa anunciou que estava grávida. Infelizmente o destino não permitiu que a gravidez continuasse, mas nesse momento, eu me senti um adulto (ou como eu imagino que um adulto se sentiria).

Cada momento em que acordo cedo, sem vontade, por uma obrigação, seja ela educacional, moral ou profissional, é um momento em que me sinto um adulto. Eu não reclamo, e faço.  É a leveza de ser um adulto que permite lidar com essa situação com naturalidade ao invés de rebeldia.

Ser um adulto é ter a consciência de que acordar cedo, estudar e trabalhar proporcionam os momentos que valem a pena serem vividos. As férias, os encontros, os acidentes, as festas. Se nossa vida for uma festa interminável, que valor há nela? Se seu trabalho melhora a sociedade e te traz um mínimo de realização, vale a pena.

Trocamos tempo (de vida) por dinheiro, e esse dinheiro nos compra o que não podemos produzir, serviços que não queremos ou podemos fazer, e facilidades que não conseguimos sozinhos. Essa compra é uma troca, permite que estas pessoas que produzem, servem ou facilitam façam o mesmo com outras pessoas, em ramos tão diferentes. Isso é sociedade. Todo momento de tranquilidade, paz e contemplação tem como preço o trabalho (de alguém). Ser adulto é saber que esse trabalho é SEU para desfrutar. É poder usar (ou até perder) tempo sabendo que é um "juro" de seu investimento de tempo baixando a cabeça nos estudos ou correndo atrás da máquina no emprego.