Comportamento, ciência, tecnologia, direito, política, religião, cinema e televisão, alguma controvérsia, algum bom senso, e um pouquinho de besteira, para dar um gostinho...

4 de mar. de 2021

O perigo do conforto ideológico

 Eu tenho uma menina de quase 2 anos de idade. Ela já teve todo o seu segundo ano de vida afetado pela pandemia. Isolamento, restrições diversas, dificuldade de manter relações com outros adultos e crianças (incluindo parentes). Por isso, e por um problema no seu desenvolvimento que causou bastante ansiedade e foi diagnosticado basicamente como sintoma do isolamento causado pela pandemia, quando as escolas abriram suas "colônias de férias", colocamos ela em uma. E o início do ano letivo prometia. Os benefícios desse contato com outras pessoas e crianças, tardes de brincadeira e ensino, foram fantásticos. Em pouco tempo os sintomas causados pelo isolamento diminuíram e ela avançou significativamente em seu desenvolvimento.

Aí veio a segunda (ou terceira, já nem sei) onda. E o colapso do deficitário sistema de saúde (sério, UM ANO DEPOIS, o que eles acharam, que a pandemia ia embora de boazinha, sozinha?). E fecharam tudo, as escolas inclusive. A notícia veio por uma liminar judicial, já que o governo estadual estava autorizando os anos iniciais e educação infantil à retornar. A liminar foi mantida em segunda instância e agora está no STF o recurso.

E eu me vejo aqui criticando essas decisões, isolado em meu teletrabalho, com uma criança nervosa por não ter mais o contato (pequeno, convenhamos) que finalmente tinha conseguido. Fiquei irritado, pesquisando por posições que confirmassem meu viés. E achei, claro. Cartas de médicos em Minas Gerais, estudos suecos.

Aí lembrei do pai que sempre busca sua menina, quase da idade da minha, sem máscara.

Lembrei do primo distante que está lutando pela vida em um hospital da região metropolitana.

Lembrei do meu pai, grupo de risco, encerrado em casa (mas indo no banco, para pagar contas).

Lembrei dos amigos que foram para a praia poucas horas após confirmarem que se livraram da infecção. Das festas que escutamos de casa no carnaval. Das festas nos pubs ao redor, indo até 4h da manhã, com grandes aglomerações.

E colocar a culpa? Isso é fácil. Achar soluções já é mais difícil. Insistir na abertura das escolas particulares, como a da minha filha, que tem condições sanitárias e de recursos humanos, enquanto há a certeza da deficiência da rede pública no mesmo sentido?

Mas estamos aqui, sentindo os problemas de uma criança de 2 anos isolada em seu desenvolvimento, suas relações sociais. E eu queria que ela tivesse ao menos aula, mas é injusto, sei... E meu viés particular me fez buscar confirmação para minha teoria, e há. Mas é uma solução? Talvez para minha família, mas não para tantas.

Disso tudo veio a conclusão: meu viés me atrapalha. Me torna emocional ao invés de racional. Ferre-se o resto, eu tenho um problema, e tenho que solucionar. E é só ler os comentários em uma postagem sobre as medidas anti-Covid19 no Facebook que você percebe que não é o único. Estamos divididos pelas imensas barreiras sociais e políticas que nos separam.

É perigoso, buscar culpados, espalhar críticas, sem apontar uma solução social plausível.

Mas é cômodo. Você tem sua "turma". Suas verdades. Espalha suas críticas, com seus pares, tem seus confidentes que pensam de forma parecida, ataca os que pensam diferente. Está certo, os outros errados.

Eu estou errado, mas também estou certo. Não há uma solução fácil para a pandemia. Mas há uma solução: vacina. Então ao invés de discutir abertura, fechamento, regras e restrições, colapsos e problemas, insistam para seus políticos comprarem VACINAS. Imunizar é o único meio de se voltar à uma falsa normalidade. Mas eles estão preocupados, com seus mandatos, suas imunidades, suas contas, auxílios...

E as vacinas estão sendo compradas por outros países.

Não é fácil. Nunca é. Mas o fácil é errado. E chegar à essa conclusão é difícil. Eu fico aqui com meus vieses, não consegui me livrar deles, embora racionalmente saiba que estou errado.

7 de jun. de 2019

Paternidade 1 - A gravidez

Em setembro do ano passado eu recebi a maior, melhor e mais importante notícia que já recebi. Minha esposa estava grávida. Nada podia me preparar para a jornada, da gravidez até agora, quando a nossa Laura já está com 24 dias de vida, modificando completamente a nossa rotina.

Vai levar alguns posts, mas acho importante compartilhar o que vivi nesse período, e talvez agora seja a melhor hora para começar.

Quando você é homem e vai ser pai, a responsabilidade sobre sua esposa é gigantesca, desde a notícia até o nascimento, você é o suporte físico e psicológico da sua esposa. É uma tarefa hercúlea, mas o caráter de um homem que apoia a esposa enquanto ela espera sua prole é definido por sacrifício, presteza e empatia.

A gravidez balança todo o físico e psicológico da mulher. Pudera, dentro dela um novo ser humano está sendo criado. Você vai passar por altos e baixos, por reclamações e surpresas, por alegrias intensas e stress intenso. Mas acredite, nada disso é páreo para o que vem depois.

Para mim, pessoalmente, a pior parte da gravidez foram os primeiros 5 meses. A minha esposa é magrinha, de estatura mediana, mas mignon mesmo. Linda, inclusive. Ocorre que enquanto a Laura ainda era um feto, pesando menos de um quilo, a barriga continuava praticamente a mesma, e nenhum sinal externo do desenvolvimento da nossa bebê era visível. Isso é angustiante e me causou stress tremendo. Eu esperava ansioso pela próxima consulta com ultrassom, e perdi noites de sono pensando se tudo estava bem, até dezembro, quando iniciaram os primeiros chutes e movimentos. Alia-se a isso os desconfortos da esposa, e um coquetel de impotência se forma. Enjoo, vômitos, doenças (pegou duas viroses e um resfriado) sem poder usar remédios. Quando a esposa convalescia, coube preparar refeições, cuidar dela, prestar todo o atendimento e atenção necessário, todo o tempo. Sem exceções. O psicológico da gestante é seu gestor. Tudo que acontece psicologicamente com ela pode afetar sua saúde, e consequentemente, o desenvolvimento do bebê.

A partir daí, aconteceu uma coisa interessante. Antes era angustiante não saber nada sobre o desenvolvimento do bebê, e agora haviam sinais claros de seu crescimento. Todos os exames estavam retornando normais, a saúde do bebê estava muito bem. Agora, os sinais externos da gravidez afetavam o bem estar da esposa. Inchaço, cansaço, roncos, desconforto... Isso se arrastou até o final. Eu feliz com o desenvolvimento da nossa pequena, e a esposa sofrendo com os sintomas. Angustiante, já que eu esperava os sinais enviados pela nossa pequena na barriga, mas tinha até receio de comentar, já que alguns desses sinais causavam terríveis sintomas na mamãe.

Eu li bastante durante a gravidez, sobre tudo, bebês, mães, cuidados. No final, a lição mais importante dos livros foi: você não serve para grande coisa. Quando digo "você", me refiro ao pai. Não atrapalhar é a maior ajuda que um pai pode oferecer. E embora seja uma negativa, não atrapalhar é também modificar completamente sua rotina para adequar a nova dinâmica. Isso inclui atribuições positivas. Os pequenos "deslizes" que poderiam acontecer com um casal jovem e com tempo e empolgação nas mãos podem causar stress intenso na conturbada mudança que envolve um casal de pais com um recém nascido.

As tarefas que antes eram executadas pela esposa integralmente, seja ela do lar ou trabalhando fora, não são mais exclusividade dela. A barriga atrapalha sim, muda o centro de gravidade. O pai deve assumir as tarefas domésticas, e para isso é necessário que ele se prepare durante a espera. Se envolva e descubra tudo que sua esposa faz com exclusividade, isso será totalmente carga sua, na eventualidade de uma cesárea (pela limitação imposta pela cirurgia) ou parcialmente (no caso de parto normal ou adoção).

As mudanças fisiológicas causam sensações estranhas na mulher. Choros incontroláveis, mudanças de humor, dúvidas repentinas. Ser positivo, assertivo e disposto é essencial. Não é fácil, você tem suas próprias dúvidas, suas inseguranças, mas acredite, isso tudo é irrelevante perante o que acomete a mulher. Então aperte os cintos, aguente firme e siga viagem.

22 de set. de 2018

Justiça e Direito

Hoje foram condenados, em Juri popular, 3 detentores de uma ideologia de ódio contra pessoas de certas raças, crenças e orientação sexual. Uma decisão inédita, histórica e comemorada por várias organizações.

Mas será que houve mesmo justiça? Nas palavras de Rui Barbosa: "A justiça atrasada não é justiça; senão injustiça qualificada e manifesta". Se passaram 13 ANOS desde o evento. É uma vida, e ainda tem apelação, inclusive, dois dos três réus desse julgamento responderão em LIBERDADE. E outro julgamento terá outros 9 réus. Que justiça é essa que, em um fato cheio de testemunhas, de extrema violência, leva uma década para dizer o Direito e ainda não acabou?

Nosso sistema judiciário parece carecer de BOM SENSO. Um menor apreendido com uma arma é solto no mesmo dia, sob responsabilidade dos pais. Preso novamente dias depois, é novamente solto em poucas horas. Onde está a justiça nisso?

Vivemos um direito positivista, sem margem para interpretações racionais, garantista e cego. Quem tem muito dinheiro e/ou poder não fica preso, com raríssimas exceções, que certos ministros do STF insistem em tentar eliminar. É um direito engessado, lusitano, onde se não está escrito, não vale, e se estiver escrito, não pode ser interpretado em nenhuma circunstância. Aí para tentar resolver o problema, se criam novas leis como se fosse brincadeira, enchendo nossos "códigos" de inúteis reafirmações menos genéricas.

Recursos intermináveis arrastam julgamentos por décadas, perdendo completamente a eficácia diante de uma situação traumática. As vítimas expostas durante todos esses anos, enquanto os algozes estão livres para ameaçar, dissuadir ou até terminar o que começaram. É triste ver que uma realização totalmente possível até para uma criança está totalmente distante de nosso judiciário.

A ideologia socialista, que culpa a sociedade por tudo, impera. Torna o indivíduo irrelevante em suas atitudes, sem considerar o caso concreto. Cria exceções sem fundamento que parecem ser destinadas a um computador: regras para todas as situações possíveis. Enquanto isso, julgadores e toda a máquina ficam a mercê de operadores que já se acostumaram com as nuances de um sistema que tinha tudo para dar certo, menos conexão com a realidade. Isso quando as pessoas não deixam a sua própria ideologia cegá-los para a realidade, defendendo quem Renato Russo definia como "O meu país e sua corja de assassinos covardes. Estupradores e ladrões".

Os direitos da maioria ficam sufocados enquanto uma minoria violenta participante de vários poderes paralelos domina os palcos da vida real. Nossas forças policiais, desamparadas diante da ineficiência estatal, tem poucas chances de ganhar esta batalha.

O pior é verificar a quase impossibilidade de mudança, já que é um problema cultural, herança mal aplicada em nosso gigantesco país. Um Estado onde leis são criadas e aplicadas por uma casta desconectada de experiências, agarrada a textos e discursos, com raríssimas exceções. Esta mesma casta receptáculo de milhares de privilégios, também totalmente fora da realidade em um país falido.

Resta, sinceramente, tirar o melhor proveito dessa situação, já que ela não vai mudar. E para isso temos que nos preparar, emocionalmente, para aguentar a enxurrada de disparates noticiados diariamente. E psicologicamente, para aprender a viver nessa estrutura da melhor maneira possível, enquanto parte das engrenagens desse sistema, e torcendo para as próximas gerações.