Comportamento, ciência, tecnologia, direito, política, religião, cinema e televisão, alguma controvérsia, algum bom senso, e um pouquinho de besteira, para dar um gostinho...

30 de out. de 2025

Carpe diem

 Hoje, com 44 anos, 2 filhas lindas (2 e 6 anos), uma linda e dedicada esposa, que se esforça para fazer tudo melhor, um emprego estável e uma carreira fantástica fazendo o que gosto de fazer, a instrospecção que sempre me acompanhou desde a adolescência é diferente.

As mesmas dúvidas que sempre me acompanharam e atormentaram minha mente distraída hoje não importam mais tanto. Tudo que conquistei está intimamente ligado à minha companheira, o que torna o amor romântico tão presente, natural. O amor incondicional que reservo à minhas filhas. Estas certezas, o trabalho duro e honesto (intelectual, no meu caso) e o reconhecimento de uma carreira longa e frutífera, me dão um cansaço que leva à um sono diferente. Sonhos diferentes.

Me pergunto se estou no "meio do caminho" da vida. Se há crise de meia idade, a minha é contemplativa. A fé que tinha morrido segue uma semente regada apenas com o amor das minhas meninas. Mas esse amor é tão forte que parece até reviver esse sentimento antigo. É uma briga constante, entre o racional, enfático e construído - e o sentimental, nutrido pela inocência que só crianças cultivam e mantêm.

E no meio de tudo isso, novas conquistas, emocionais e materiais.

E apesar de ter certeza da finitude, e de questionar a cada dia o sentido de fazer tudo que faço, eu também tenho o alívio de ter um objetivo imponente: criar todas as condições para que minha família cresça, melhore, seja feliz.

18 de set. de 2025

Opiniões e futuro - A internet é para sempre

Post rascunhado em 11/2019. Não tinha pandemia ainda. E eu só tinha uma filha, e ela tinha 7 meses. Antes de toda a guerra política dos últimos anos. Não modifiquei o que já estava escrito, e não lembro (sinceramente) o motivo de não ter postado isso na época.

Eu tenho um conjunto bem heterogêneo de amigos. De todas as escolaridades, passados, anseios e situações. Gosto de me cercar de pessoas com opiniões divergentes com o intuito de fugir da "bolha" social que espreita nos algoritmos de preferência que as grandes mídias sociais usam. Para fugir disso, no entanto, sou obrigado a não expor tantas opiniões quanto gostaria. Uma benção disfarçada de maldição. Ocorre que se expressar opiniões muito divergentes, em nosso ambiente dualizado e na era da pós verdade, a interação das pessoas comigo vai pesar tanto quanto minha interação com elas, e nisso a vontade da mídia de criar uma câmara de eco confortável, evitando o conflito, vai se sobrepor à minha vontade de ler o outro lado.

Assim sendo, temas polêmicos como religião, política e até futebol viram uma vitrine de suas preferências, conforme sua interação e das outras pessoas. Não gosto disso.

Dito isso, estou plenamente ciente, em cada post, compartilhamento, foto ou vídeo, que a Internet é para sempre. Na verdade nada é para sempre, mas com certeza vai ser mais velha que você, e talvez seus netos.

Enquanto isso, a minha opinião muda, sobre assuntos diversos, conforme novas informações aparecem. Conforme leio, entendo, estudo, compartilho e converso. Foi assim com assuntos polêmicos, em que rejeitei o generalismo e o preto no branco da verdade absoluta para me enveredar no cinza que domina o ambiente do "não é bem assim". É um exercício libertador, embora muitas vezes improdutivo. Causa uma certa ansiedade, que só a dúvida produz. Mas a dúvida é por vezes mais libertadora que a "verdade" absoluta, que por vezes, estudada em suas raízes mais profundas, retirada de contexto ou colocada em contextos diversos, se perde no meio da complexidade das relações humanas e do mundo em geral.

No entanto, nos últimos tempos percebi gente inteligente, que eu conheço de outras décadas e espaços, expondo opiniões preto no branco, sem dialética, por vezes com violência verbal exacerbada, atingindo as opiniões contrárias como se sua verdade fosse a absoluta e inabalável certeza. E quem pensa diferente é um coitado, desprovido de inteligência, traidor de preceitos nobres. Como se a verdade absoluta fosse apenas uma, e todo o resto está errado.

Ouso dizer que, se vivêssemos em um mundo em que a verdade absoluta dominasse, estaríamos em um deserto de ideias, como são as ditaduras (não importa o espectro político em que ela se encontre). Quando não há espaço para discutir, revoltas acendem. Sem diálogo, mesmo diametralmente oposto, não se avança em nada.

Mas as pessoas esquecem que a Internet tem memória de elefante. Ela não perdoa, nem esquece.

Envelhecer

 Hoje estava escutando a música Buried Alive do Avenged Sevenfold (sim, quem diria, eu gosto de heavy metal, mas essa é quase uma balada).

Fantástico como algumas músicas nos remetem ao momento atual da vida adulta. Estou no "meio" do caminho (espero). Muitos anos se passaram, inclusive destes posts. Eu posto (sem regularidade nenhuma) desde 2005. São 20 anos. Isso é muito tempo. Tempo em que minha vida mudou tanto que não me considero a mesma pessoa que escrevia estas linhas duas décadas atrás. "Muito mudado desde a última vez".

Às vezes me sinto "enterrado vivo" - a responsabilidade da vida real, minhas filhas, esposa, carreira e o investimento em uma vida melhor para todos nós é um fardo fantástico. Mas o custo é tão pequeno perto do benefício. Minhas lindas meninas, felizes, crescendo. Minha linda esposa, sempre ao meu lado, completa meu mundo. Ela me conhece tão bem que chega a assustar.

No meio de uma viagem, comentei com ela sobre uma pergunta de um repórter à uma entrevistada (CEO de uma empresa) e ele perguntou: "você tem 30s para dizer algo para você mesma aos 18 anos, o que você diria?". E ela adivinhou exatamente o que eu diria: nada. O efeito borboleta que poderia me impedir de estar, agora, onde estou, com quem estou, é assustador. Eu não diria nada.

E agora, sentado no escritório, tentando pela terceira vez terminar este post (e com mais rascunhos de meses atrás) eu me considero sortudo, talvez abençoado, talvez esforçado, certamente feliz. A felicidade de saber que a soma de tudo é MUITO mais positiva do que negativa.

26 de mar. de 2025

Já verificou o wearout do seu SSD hoje?

A modernidade nos levou à uma sociedade conectada em que a tecnologia cada vez mais faz parte do cotidiano. Apesar disso, cada vez menos pessoas entendem de fato de tecnologia. Os cursos específicos esvaziam-se, ligados à STEM (Science, Technology, Engineering and Mathematics), se provam muito difíceis para uma geração acostumada à satisfação imediata e recompensas fúteis, sem esforço. Paradoxalmente, muitas destas comodidades vem diretamente da tecnologia que eles usam, mas não entendem.


Então, nos primórdios havia os HDDs, spinning rust, discos de metal magnetizado acumulando informação. Um pináculo para a época, hoje continuam mais baratos e acessíveis e ainda muito usados para dados de pouco acesso (backups de longo termo, por exemplo) e/ou auxiliados por tecnologias de armazenamento mais novas, mais rápidas.

E então vieram os SSDs (Discos de Estado Sólido). Memórias em chips de silício, sem partes móveis, mais silenciosos, energeticamente eficientes e principalmente, rápidos. Muito rápidos. Em média de 4 a 5 vezes mais rápidos que os HDDs. E se tornaram o padrão. Primeiro usando o protocolo dos HDDs (SATA) e um fator de forma também compartilhado com os HDDs de notebook, de design mais fino, mais eficientes. Posteriormente veio o padrão NVME. Agora os discos se ligam diretamente ao processador ou chipset através de trilhas PCIe. Aí a coisa foi de 25 vezes para até 70 vezes mais rapidez em comparação aos HDDs mais modernos.

Um sopro de vida em um mundo em que o armazenamento é o maior gargalo, onde sobra processamento e a memória pode ser auxiliada pelo armazenamento. Virou padrão. Chips pequenos, leves e rápidos. É só alegria.

E se passaram alguns anos.

Agora começaram os relatos. Meu computador não liga mais. Cadê meus dados.

Poucas pessoas tem backups, e muitas não tem ideia de como recuperar algo. E os SSDs tem um detalhe chamado Wearout. Em SSDs isso é o desgaste natural que ocorre porque cada célula de memória só pode ser apagada e regravada um número limitado de vezes antes de parar de funcionar. SSDs têm células reservadas que entram em ação para substituir as que param de funcionar, mas quando essas reservas acabam, o SSD pode ficar instável, mais lento ou até parar de funcionar.

E com os computadores contando com sistemas operacionais modernos que escrevem logs de tudo, sistemas de segurança como antivirus escrevendo bastante, mesmo parado seu computador está o tempo inteiro escrevendo no disco, desgastando estas células.

Desde que soube deste fato observo com cuidado meus sistemas com SSD. Uso o CrystalDiskInfo para isso. E deixo ele rodando para me avisar de eventuais problemas. O disco principal do meu servidor doméstico atingiu 25% de wearout (um quarto das células reservadas gastas) e foi substituído por segurança.

E você, já verificou o wearout do seu SSD hoje?

30 de jul. de 2024

Afterlife - 28 anos depois

 Lá pelos idos de 1996, 1997, eu ganhei de presente dois jogos que marcaram minha adolescência. Ambos rodavam no DOS, e ambos eram difíceis para caramba. O primeiro, Privateer 2 - The Darkening, estrelando nomes como Clive Owen e Cristopher Walken. O segundo, diretamente da LucasArts - Afterlife.

Não cheguei a jogar mais Privateer 2, primeiro por não ter mais um joystick, e segundo por ser um simulador longo.

Mas alguns anos atrás, eu mergulhei atrás do Afterlife. Eu lembro nitidamente do sofrimento de nunca ter ganho lucro nesse jogo quando era adolescente. Não cheguei nem perto de "terminar" ele. Então quando retornei ao jogo, quase 20 anos depois, resolvi que ia "terminar". E o fiz. Depois de MUITO esforço. Agora descobri que ele estava na Steam. E comprei.

O que antes me levou alguns dias, fiz em algumas horas. Lucro no jogo. Nenhum aviso. Agora eu ENTENDO os conceitos. Como era difícil quando eu era mais novo.

Isso é um atestado fantástico da maneira como nossa mente muda ao longo dos anos. Prá melhor.

Ainda faço um tutorial em Português!

31 de mai. de 2024

Tech Tip 1 - HP SmartArray P410i HBA mode

Its funny how things evolve fast in the I.T. world. Less than 15 years ago, if you wanted a fast, reliable and consistent storage, your best bet would be a server with a RAID Sata/SAS card. They were expensive and often came with expensive licenses too.


HP has its SmartArray line up, and its consistent, to this day. A few years later, software like ZFS came along and those old, specialized pieces of hardware are now only for newer generation of storage on big servers, and the industry shifted to software solutions while the craze about homelabs and local servers expands. And I'm stuck with old servers that need repurpose.

So someone donated me a HP Proliant DL380 G6, that came with a P410i SmartArray controller and 8 2.5 bays. Nifty piece of hardware, Intel Xeon (older) with some ECC memory, great networking, dual PSUs, useless iLO 2 management interface and 4 USB ports that don't boot anything bigger than 8 gigs.

So, in order to take advantage of various features, I needed access to the raw drives connected to the controller. This old controller doesn't support HBA mode officialy, but there are hacks that can turn it on. Basically you compile a program to set a nifty bit in the controller NVRAM. In order to do that, you first need to upgrade the controller driver, not an easy task, but far from "technical". I used the instructions HERE.

After upgrading and setting the HBA bit mode, you need the right kernel patch do be able to access the drives. What usually happens is: your controller is in HBA mode, but the driver that comes with the kernel (HPSA) doesn't see the drives (better yet, it sees them and explicitly hides them from the OS). Here comes the web for the rescue: https://github.com/99dimitris/hpsahba has the patch needed for direct access. You just need to symlink the right kernel version and run a script, this downloads and patches the DKMS module, and you'll get access to the drives. This wasn't easy to find, and here comes Google to the rescue again: THIS post from Proxmox foruns saved me. And now ZFS works out of the box, and this nifty server can once again "serve", either with a Proxmox, or TrueNAS install.

4 de fev. de 2024

Virar adulto

 E que ponto da vida viramos "adultos"? Com 17 anos "saí de casa" (ainda BEM sustentado pelos pais) para "viver sozinho". Falhei miseravelmente e voltei, agora com 19. Novamente na dependência completa, até os 24, quando alcancei a independência financeira. Aos 26 conheci o amor da minha vida. Nossa vida sempre foi estável, financeiramente falando.

Aos 34 anos voltei a estudar, impulsionado por um desejo de melhorar. Aos 37 me formei e aos 38 virei pai pela primeira vez. E aí a chave virou. Das minhas decisões não dependiam apenas eu e a esposa. Tinha uma menininha também, indefesa e dependente. Qual o motivo de ter demorado tanto para vir a tal da "maturidade"?

Nunca mais esqueci a chave, ou onde estacionei. Não virei mais madrugadas (com raras exceções). Comecei a investir para o futuro (embora tenha um patrimônio sólido, sem liquidez) e fazer planos para 10 anos ou mais. Me atualizei, consegui outro emprego, sempre pensando em um futuro melhor. E para completar aos 42 nasceu minha segunda filha.

Eu ainda tenho os sintomas de um TDAH não diagnosticado e controlado. Mas nada que "importa" ficou para trás mais. Não gosto de pensar em decisões do passado, pois o meu presente é lindo e qualquer mudança talvez modificasse essa situação tão boa, mas me pergunto se não poderia ter economizado tempo e ajustado para o futuro mais cedo.

Mas hoje, com a experiência de ser instrutor profissional, eu estou mais tranquilo. Sei que não adianta falar... Não adianta tentar convencer um aluno, cujos pais ou não chegaram ou nunca chegarão à estas conclusões, a ser diferente. É difícil. Somos espelhos do que vivemos até que nosso cérebro mature o suficiente, e às vezes nem isso é suficiente.

Mas há esperança. Nas minhas meninas. Elas vão ver um pai dedicado à um futuro distante, que se apropriou de conhecimento para dar à elas as oportunidades que elas puderem aproveitar, sem sacrifícios demasiados. Elas vão ler, vão planejar, talvez do jeito delas, mas estarão expostas à essa cultura de fazer mais com o hoje para aproveitar o amanhã. Vão ver uma mãe dedicada que cuida delas com excelência e um amor envolvente que nos cerca bem antes delas terem nascido. Vão ter a compania uma da outra, e a nossa presença incondicional.

É como olhar um filme muito bem produzido. Em que os principais atores são os amores da minha vida.

2 de mar. de 2023

Uma nova jornada - Educação

 Comecei uma nova jornada em janeiro de 2023. Com a ajuda de um grande amigo, consegui realizar um dos meus sonhos: ensinar. Embora esteja patinando e aprendendo, e talvez me falte experiência e enfoque em pedagogia (eu sou extremamente técnico), estou tentando e evoluindo.

Há um grande déficit na educação em nosso país, mas esse fenômeno não é exclusividade brasileira. Há uma tragédia educacional ocorrendo em nível mundial. Uma geração que não entende tecnologia está oferecendo tecnologia para seus filhos, sem controle e sem limites. Estamos diante de uma população que usa tecnologia diariamente, mas não entende e/ou não quer entender nada de tecnologia. Matemática é o inimigo, e tecnologia é completamente inacessível por detrás das telas e toques. A ciência, tecnologia, engenharia e matemática são "muito difíceis", não estão no radar da maior parte dos jovens como oportunidade de carreira.

Enquanto a geração passada se profissionalizou em outros campos e conseguiu "viver a vida" sem esse conhecimento, compram para seus filhos os aparelhos que eles não entendem, expondo-os a uma rede gigante, pouco regulada e inóspita. Uma fonte ilimitada de dopamina, viciante, composta por entretenimento inútil e facilmente acessível.

Essa nova geração usa tecnologia e tem facilidade com ela, mas ao mesmo tempo, fadigados pelo consumo de reels e shorts, acabam com tempo de atenção reduzido, dificuldade de concentração, um péssimo sono e um desempenho escolar medíocre. Culpam os professores, a "sociedade", as matérias, o mundo, por acharem tudo muito "difícil", e não conseguirem acompanhar a jornada (mas continuam "avançando", sob o pretexto de gerar estatística positiva).

Uma geração maltratada pela dificuldade da hiperinflação, desemprego e trabalho duro gerou uma geração mimada. Pessoas que a vida toda escutaram ser "especiais" e "diferentes" do resto. Agora eles aguardam pacientemente, entre o mundo de faz de conta das redes sociais e streamings, que a sociedade os recompense, como seus pais sempre fizeram, por serem tão especiais. Enquanto isso, envelhecem e descobrem da pior maneira que não são.

Querem mudar o mundo do conforto de seu quarto climatizado, e querem ser reconhecidos e recompensados por esse magnânimo esforço.

A leitura em declínio, ou maltratada por gêneros de fácil consumo, o fast-food da leitura (quando consumido, é melhor que nada), a educação científica maltratada e destruída por um sistema que beira a insanidade ao crer que ninguém pode sentir-se ofendido ou derrotado.

Há exceções, famílias onde se ensinam valores e lições, e a grande tarefa do educador parece ter saído do escopo de mostrar conhecimento, para abordar um novo desafio: encontrar os desgarrados que reconhecem suas fraquezas e querem mudar isso. E deixar o "sistema" (esse malvado) filtrar o resto. Resta esperar que esse filtro englobe mais desafios.

Enquanto persigo esse sonho de ensinar, vou acumulando experiências e erros, e reflito sobre a minha própria educação. Os erros e acertos cometidos em décadas de ensino acumuladas. É uma experiência surreal e extremamente válida, ainda mais com uma pequena "esponja" de conhecimento se tornando cada vez mais questionadora e esperta dentro de casa. Minha filha terá lições do velho e do novo.

Autoconfiança não precisa se tornar narcisismo. Coragem não se compara a burrice. Matemática é a língua do universo e ciência é a ferramenta de descobrir tudo. Atenção não é recompensa e predadores não são admiradores.

É uma tarefa difícil, uma luta diária, uma experiência única e incomparável.

23 de nov. de 2022

TDAH - Hiperfoco - Exaustão e tratamento

 Muitos anos atrás eu fui diagnosticado com TDAH. Foi bem antes de ler "Tendência a Distração", livro de Edward M. Hallowell e John J. Ratey que fala sobre vários casos do transtorno em adultos e crianças (e me deu a certeza, após me identificar com vários relatos). Na época em que recebi o diagnóstico, foi de uma psicóloga recém formada, trabalhando de graça no mesmo lugar que eu. Não foi bem uma consulta. Recebi como recomendação na época tentar medicamentos ou continuar terapia. Meus pais já gastavam uma nota me mantendo em um curso superior em uma cidade de alto custo de vida, mesmo em uma Universidade Federal, e eu era "altamente funcional" então enterrei esse aspecto, para ser lembrado dele anos depois, já estável em um emprego, quando não consegui terminar o curso de graduação.

Mas foi um abalo mínimo, mais perda de tempo que qualquer coisa.

De lá para cá "manejar" a minha neuro atipicidade foi, podemos dizer, fácil, a chegada da minha filha me fez adquirir habilidades antes impossíveis de concentração. Parece que quando a aposta é alta, a resposta também é, e não tem aposta mais alta que a minha bebê. Até que entrei em uma espiral descendente com uma soma de fatores. Várias responsabilidades, falta de motivação, apatia e cansaço, muitas doenças seguidas e um sentimento de que a coisa não estava melhorando.

Com a ajuda da esposa (e da nossa filha, jóia da minha existência), atravessei essa tempestade e estou no caminho da recuperação, embora sinta que preciso de mais um pouco de tempo para perder esse cansaço que me abala, atrapalha meu serviço e atividades.

Para explicar: eu não tenho depressão. Depressão não passa pela minha cabeça. Tenho muita pena de quem sofre as consequências dessa doença terrível, mas nunca fiquei deprimido. O cérebro TDAH geralmente não fica deprimido. Eu amo a vida, amo atividades, gosto de várias coisas e tenho paixão pela minha esposa e filha. O que domina o TDAH é a apatia. É o cansaço. É ver nas obrigações uma tarefa intransponível, que certamente causará muito mais dor ao ser encarada do que ao ser ignorada. Uma ansiedade que atrapalha o sono e a concentração (já ferrada). Muitas obrigações. Aí vem o grande problema. Eu não consigo iniciar as tarefas. Depois que elas começam até a coisa anda, mas para começar, está complicado. Esse ano isso se mostrou inescapável, e teria perdido um ano inteiro de estudos, não fosse o apoio inigualável da minha esposa.

No trabalho, os colegas ajudam bastante. É a salvação.

Por outro lado, eu tenho hiperfoco. É um período de imensa concentração. Nesse tempo, o objeto da atividade tem atenção inescapável. É possível escrever por horas, dias. É fácil, até divertido. Os problemas são resolvidos, as questões se abrem e o mundo fica mais fácil de navegar. Até que passe. 

Por isso resolvi tentar tratamento. 20 anos depois do diagnóstico inicial. Vamos ver o que mudou no tratamento e manutenção da condição. Vamos tentar retomar a alta produtividade que me abandonou no início da pandemia e que teima em não voltar. Dizem que o primeiro passo é admitir o problema, mas eu não só admito como confesso, se necessário, e sempre foi assim.

Experimentei remédios alguns anos depois do diagnóstico. Modafinila e Ritalina. Era horrível, apesar da concentração aumentada, os efeitos eram sentidos do início ao fim, e eu me sentia outra pessoa. A sensação de ser outra pessoa é muito ruim (ainda mais de ser essa pessoa só quando sob efeito de um remédio), saber o momento exato que a droga age, até parar o efeito. Parece até a música do Ed Sheeran - Bloodstream. Tell me when it kicks in.

Mas vai saber, a indústria farmacêutica evoluiu muito. A área terapêutica também. O negócio é que percebi que sozinho a coisa não estava andando. Então vamos pedir ajuda profissional! Nova fase. Exercícios, dieta melhor, melhores costumes, muita água e sol... E terapia.

11 de nov. de 2022

Muito tempo atrás, em uma galáxia muito distante

Eu estudei bastante nesses últimos 23 anos. Vão-se alguns cursos superiores, algumas especializações, vários cursos e incontáveis horas de pesquisa e trabalho.


Eu trabalho com Informática desde 1994, mas fui aprender a programar em 1999 e me apaixonei. Em 2000, após trabalhar um bom tempo com PHP e o (deveria ser) defunto ASP, eu aprendi ActionScript. Para quem não sabe, essa linguagem é a que o Flash (sim, aquele, da Macromedia, posteriormente da Adobe, conhecido pelas inúmeras falhas de segurança, e a inovadora ideia de interface rica BEM antes da Web 2.0) usava para criar interação e animações.

Ninguém sabia ActionScript na época, e uma das únicas fontes de conhecimento eram os manuais técnicos da própria Macromedia. Não era fácil.

Quando me empolgo com algo, eu fico hiperfocado. É um problema e uma solução em si. Com hiperfoco consigo assimilar conhecimento rapidamente e avançar dias em horas. Mas até ele chegar, tudo é muito difícil e a apatia me domina.

Não vem ao caso, eu era especialista em ActionScript e "programação" Flash. Eu também era estagiário em uma instituição, e trabalhava prá caramba. Essa instituição tinha vários departamentos, e eu fazia parte de dois deles, digamos, duas áreas distintas relacionadas, mas separadas. Trabalhava em uma, e fazia parte da outra.

Um dia, estava trabalhando e recebi uma ligação do meu chefe. Reunião. Agora. Cheguei lá fui informado que deveria parar tudo que estava fazendo, pois um projeto do outro departamento precisava da minha ajuda. Era um problema relacionado ao ActionScript. Como o pessoal do outro departamento tinha muita influência com a direção da empresa, eles me "requisitaram", eu não era um estranho lá, mas não gostava muito daquele pessoal. Eram meio egocêntricos e meio cheios de si, se achando melhores que o "pessoal do suporte" do qual eu fazia parte.

Ao chegar lá me explicaram o problema. Um "especialista" em ActionScript tinha criado uma animação especial para o aniversário do departamento. Seria exibido (eram mais ou menos 2m30s) para a Diretoria e convidados em uma festa marcada para dali 10 dias. Estava pronto. Acontece que o "especialista" que criou o negócio não entendia nada da exportação e execução dos vídeos FLV que o Flash exportava. Quando foram exportar, o vídeo ficou gigante, e nenhuma máquina conseguia rodar ele. As frames se atrasavam em relação ao som, criando uma coisa horrível.

Eu era o novo "chefe" daquele projeto. Foi uma semana coordenando o time, distribuindo tarefas entre o software (otimizando o vídeo, imagens e som) e hardware (criando um computador "state of the art" para conseguir rodar aquele negócio suave. Foi muito trabalho, madrugadas perdidas, muito estudo, stress e suor. Mas cumprimos o prazo. Estava rodando, liso, toda vez, show de bola.

O departamento então pegou nosso time, pagou um jantar chique, elogiaram muito o trabalho.

Acontece que, chegando mais perto a data do evento. Não veio o convite. Eu ERA daquele departamento (também, só não recebia pagamento deles). Não fui convidado para a apresentação do vídeo que eu criei. Era o início das redes sociais e eu vi essa galera (que tinha ferrado com o projeto antes de eu chegar) ganhando PRÊMIO pelo projeto, tomando champagne e festejando.

Eu tinha 19 anos e aprendi que nem sempre trabalho duro era reconhecido. Muito menos recompensado. Fui uma dura lição.

Mas faz muito tempo, e fora a lembrança, nenhum sentimento é despertado, mas vale a pena relembrar.

18 de jun. de 2022

Mudanças na vida e evolução

 Em uma conversa por esses dias com amigos, ponderamos as mudanças absurdas em nossas vidas que alguns eventos voluntários criam. Afinal, qual seria o motivo para aceitarmos de boa vontade mudanças radicais que duram literalmente o resto da vida? Não seria mais fácil se deixar levar pelas ondas da vida sem criar compromissos permanentes?

Os principais eventos discutidos foram os básicos: relacionamento e filhos. Acho que dá até para considerar um consequência do outro. Estamos falando, claro, de eventos planejados. Filhos fora do relacionamento, por exemplo, podem ser um evento não planejado (mas afetar a vida da mesma forma). Mas para efeitos desta argumentação eu uso o evento voluntário por um simples motivo: ele evidencia a vontade consciente de criar esse compromisso, e a responsabilidade permanente de viver com essa decisão.

Depois da conversa comecei a pensar mais sobre isso, e cheguei à algumas conclusões. São exemplos meus, e portanto, não universais. Também se aplicam à minha forma de relacionamento / paternidade, muito mais do que outras pessoas... Cada um leva o compromisso da forma que melhor lhe aprouver.

Para mim o relacionamento íntimo e a paternidade são mais que meros compromissos individuais. Existe uma responsabilidade com a sociedade que nos permite viver da forma que vivemos. Também com a família, aumentar esse núcleo de ajuda mútua e convivência. E em última forma, criar uma sociedade melhor, preparando nossos filhos para terem esta mesma responsabilidade e contribuir para uma evolução social, sem esquecer a individualidade e os compromissos com família estendida, círculo social mais próximo (escola, amigos), e a entidade familiar básica (pais, irmãos).

Eu sou um questionador, e portanto questiono até meu status quo. E ainda assim, intimamente, não imagino minha vida sem minha esposa e filha. Há percalços (sociais, relacionais, financeiros, psicológicos) relacionados à manter essa unidade. Mas esses são adubo que levam à uma colheita repleta de felicidade, momentos impossíveis e emoções intermináveis.

Então, ao observar os casais "child free", ou os eternos solteiros. Conversar sobre os compromissos, ou falta deles, observados em suas vidas, acabo lembrando que eu passei por isso. Realmente é muito confortável manter-se assim. E da mesma forma, eu sinto que há uma dívida social à ser paga, que envolve não só seus pais, irmãos, chefes, mas toda a sociedade como colcha de retalhos que nos provê serviços, produtos e proteção. Manter-se alheio à isso é uma perda social. Se você resolve retribuir de outra forma (empreendedores por exemplo, tem dificuldade em manter esses tipos de relações, mas contribuem com a evolução social de outra forma, até como mentores), tudo bem. Mas eu vejo muitas pessoas, e muitos casais, andando pela vida sem pensar nisso.

Para mim, um relacionamento estável provê as dificuldades necessárias para de fato aproveitar tudo de bom relacionado. Intimidade, cumplicidade e apoio mútuo. E quem não percebe isso, em minha modesta opinião, está perdendo tempo, pois este tipo de relacionamento é como um investimento muito bem feito. Demora para dar frutos, e continua rendendo estes para sempre.

Filhos são outra face da mesma moeda. Proporcionam experiências impossíveis de conseguir de outra forma. Não tem como descrever. Literalmente mudam a forma como nos vemos, como nos sentimos, como seres humanos. Ter esse tipo de responsabilidade sobre um bebê ou criança é uma experiência não só enriquecedora, mas sim transformadora. Você não é mais o mesmo. É melhor. Não é vaidade, é realidade. Quando seus planos incluem esse tipo de responsabilidade, você não é mais a mesma pessoa. Se torna mais confiável, mais responsável, mais crítico. Preparar sua criança para a vida, família e sociedade é uma aventura com impactos em todos os aspectos. Para melhor.

Em suma, observando a dicotomia entre a liberdade e a responsabilidade, tenho algumas conclusões. Antes de mais nada, cada um faz o que quer com sua vida. Esta máxima deve ser respeitada. Ainda assim, a minha experiência diz que esses eventos (casamento, filhos) são experiências que engrandecem de uma forma impossível de conseguir de outra forma (claro, adoção por exemplo, também encaixa). Também não são mutuamente excludentes, ou impossíveis de separar. Mudar assim exige uma força muito grande. E por fim: isso melhora você como pessoa, como indivíduo, como trabalhador, como parte da sociedade. Aconselho pensar bastante, pois da mesma forma chego à conclusão que não é para todos, e nem todos conseguem as experiências que descrevi simplesmente "casando e reproduzindo". Mas para quem se aventura de cabeça, a experiência é de mudança de vida, para melhor.

18 de mai. de 2022

Minha filha vai ser atea?

 A resposta é: não sei!

E é uma excelente resposta. Talvez por ser um ateu agnóstico, e também não "saber" por definição.

Minha esposa é teísta, uma católica não praticante. Minha filha sabe rezar para os anjinhos. E eu não me importo. E eu consigo elaborar um motivo muito interessante para não só aceitar isso, como achar isso excelente.

Primeiro, a minha própria jornada ao ateísmo só foi concluída aos 25 anos. Foi muita experiência, muita reflexão, muita crise existencial e muita contemplação até chegar onde cheguei (e permaneço, por enquanto). Então exigir isso da minha filha de 3 anos seria não só uma crueldade, mas um disparate. No entanto, eu tenho algumas resoluções: eu não minto para ela, e eu tento explicar para ela como as coisas funcionam. Dito isso, a perda recente do meu pai, o vovô dela, não deixou barato. Minhas convicções se abalaram, como qualquer momento de grande emoção pode fazer. E abandonei a militância. As pessoas nesse momento não querem saber de sua convicção pessoal. E não se deve abandonar a civilidade e empatia pela busca da realidade nua e crua. Então, quando minha esposa disse para ela que o vovô tinha virado uma estrelinha, eu aceitei que para a idade dela, essa explicação estava muito boa.

A nossa mente adulta por vezes esquece a sequência de eventos e aprendizado que nos levou até o ponto em que estamos. A melhor analogia para isso eu busco na matemática, mais especificamente o sistema decimal. Aprendemos a contar de 1 à 10 e ninguém nos explica o motivo. É que para a mente jovem, assimilar esse conceito complexo fica mais fácil se deixarmos ele mais simples. Contamos de 1 em diante e viramos de 10 em 10 pois é assim e pronto! Se você fosse explicar o sistema decimal de verdade, precisaria de conceitos muito complexos, como potenciação, propriedades desta e suas implicações. 0 é zero. 1 é 10 elevado na potência 0 (como qualquer número), e aí a representação é a multiplicação dos dígitos do sistema até "virar".

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1234 (mil, duzentos e trinta e quatro) é simplesmente 1000 (1x10³) somado com 200 (2x10²) somado com 30 (3x10) somado com 4 (4x10°) - tão simples e tão complexo...

Tem muito adulto que não sabe isso. Não faz parte dos currículos normais das escolas (o que é uma pena, pois depois esses alunos penam se quiserem entrar em algum campo de ciência, tecnologia, matemática ou engenharia, que usam outros sistema como hexadecimal e binário). Agora imagine tentar explicar isso para uma criança de 6 anos. É a mesma coisa que tentar explicar a morte para uma criança de 3 anos. Não tem como. Eles não estão preparados, e provavelmente não estarão por um bom tempo. Não é como se a racionalização que fazemos no alto do nosso desenvolvimento mental completo possa se comparar com eles.

Então, eu vou acompanhar a jornada da minha filha, sempre com honestidade, sempre com atenção, mas sem impor nada. Nem minhas ideias, por serem minhas, nem minha jornada, por ser longa, nem minha convicção, por ser pessoal. Só posso guiar essa jornada, sem empurrar em nenhuma direção, apenas fornecendo informação, e esperar ela chegar à própria conclusão. E depois apoiar ela nisso, pois aí já é a missão dos pais.

27 de nov. de 2021

E se foram mais 7 meses....

 Fazem sete meses que falei sobre a guerra ideológica que domina nosso país, sobre vacinas e retorno das aulas presenciais. De lá para cá as aulas voltaram, nenhum de nós pegou COVID, eu e a esposa estamos com duas doses da vacina, e a pandemia arrefeceu, sempre com o risco de uma nova variante, já que ainda tem gente recusando ou incapaz de tomar a vacina, tanto aqui quanto em outros países.

Mas 2022 vem aí, novas vacinas, para variantes, reforços, e vai acabar. Antes ou depois das eleições, não se sabe.

Hoje minha bebê tem dois anos e 7 meses, fala tudo, faz muita coisa sozinha, e me espanta e assusta com seu desenvolvimento diário. Muito disso veio da escola, onde ela consegue conviver com outras crianças e desenvolver seu potencial.

Nos últimos meses descobri a importância da saúde. Muitas coisas só fazem falta quando as perdemos. Em julho, logo após meu aniversário, uma sequência de eventos me levou para uma espiral descendente de algo comum: sinusite. E se passou um mês, depois outro, depois outro. Veio acompanhada de bronquite, asma, dor e muito mal-estar. Adiamos férias, consultei diversos médicos, fiz 6 rodadas de antibióticos e acabei em uma mesa de cirurgia, com um pós operatório terrível. Agora faz um mês e meio da cirurgia. Já respiro, mas estou com, adivinha: sinusite! Mas agora os seios nasais estão drenando, e esta última rodada de antibióticos deve resolver.

Férias adiadas, programas cancelados, dores, mal estar. Depois a recuperação cirúrgica (ainda incompleta), e conviver com os problemas de saúde que o clima maluco deste ano causa na esposa, na criança, e em mim. Mas estamos "voltando" a normalidade. De máscara e usando álcool, mas voltando.


4 de mar. de 2021

O perigo do conforto ideológico

 Eu tenho uma menina de quase 2 anos de idade. Ela já teve todo o seu segundo ano de vida afetado pela pandemia. Isolamento, restrições diversas, dificuldade de manter relações com outros adultos e crianças (incluindo parentes). Por isso, e por um problema no seu desenvolvimento que causou bastante ansiedade e foi diagnosticado basicamente como sintoma do isolamento causado pela pandemia, quando as escolas abriram suas "colônias de férias", colocamos ela em uma. E o início do ano letivo prometia. Os benefícios desse contato com outras pessoas e crianças, tardes de brincadeira e ensino, foram fantásticos. Em pouco tempo os sintomas causados pelo isolamento diminuíram e ela avançou significativamente em seu desenvolvimento.

Aí veio a segunda (ou terceira, já nem sei) onda. E o colapso do deficitário sistema de saúde (sério, UM ANO DEPOIS, o que eles acharam, que a pandemia ia embora de boazinha, sozinha?). E fecharam tudo, as escolas inclusive. A notícia veio por uma liminar judicial, já que o governo estadual estava autorizando os anos iniciais e educação infantil à retornar. A liminar foi mantida em segunda instância e agora está no STF o recurso.

E eu me vejo aqui criticando essas decisões, isolado em meu teletrabalho, com uma criança nervosa por não ter mais o contato (pequeno, convenhamos) que finalmente tinha conseguido. Fiquei irritado, pesquisando por posições que confirmassem meu viés. E achei, claro. Cartas de médicos em Minas Gerais, estudos suecos.

Aí lembrei do pai que sempre busca sua menina, quase da idade da minha, sem máscara.

Lembrei do primo distante que está lutando pela vida em um hospital da região metropolitana.

Lembrei do meu pai, grupo de risco, encerrado em casa (mas indo no banco, para pagar contas).

Lembrei dos amigos que foram para a praia poucas horas após confirmarem que se livraram da infecção. Das festas que escutamos de casa no carnaval. Das festas nos pubs ao redor, indo até 4h da manhã, com grandes aglomerações.

E colocar a culpa? Isso é fácil. Achar soluções já é mais difícil. Insistir na abertura das escolas particulares, como a da minha filha, que tem condições sanitárias e de recursos humanos, enquanto há a certeza da deficiência da rede pública no mesmo sentido?

Mas estamos aqui, sentindo os problemas de uma criança de 2 anos isolada em seu desenvolvimento, suas relações sociais. E eu queria que ela tivesse ao menos aula, mas é injusto, sei... E meu viés particular me fez buscar confirmação para minha teoria, e há. Mas é uma solução? Talvez para minha família, mas não para tantas.

Disso tudo veio a conclusão: meu viés me atrapalha. Me torna emocional ao invés de racional. Ferre-se o resto, eu tenho um problema, e tenho que solucionar. E é só ler os comentários em uma postagem sobre as medidas anti-Covid19 no Facebook que você percebe que não é o único. Estamos divididos pelas imensas barreiras sociais e políticas que nos separam.

É perigoso, buscar culpados, espalhar críticas, sem apontar uma solução social plausível.

Mas é cômodo. Você tem sua "turma". Suas verdades. Espalha suas críticas, com seus pares, tem seus confidentes que pensam de forma parecida, ataca os que pensam diferente. Está certo, os outros errados.

Eu estou errado, mas também estou certo. Não há uma solução fácil para a pandemia. Mas há uma solução: vacina. Então ao invés de discutir abertura, fechamento, regras e restrições, colapsos e problemas, insistam para seus políticos comprarem VACINAS. Imunizar é o único meio de se voltar à uma falsa normalidade. Mas eles estão preocupados, com seus mandatos, suas imunidades, suas contas, auxílios...

E as vacinas estão sendo compradas por outros países.

Não é fácil. Nunca é. Mas o fácil é errado. E chegar à essa conclusão é difícil. Eu fico aqui com meus vieses, não consegui me livrar deles, embora racionalmente saiba que estou errado.

7 de jun. de 2019

Paternidade 1 - A gravidez

Em setembro do ano passado eu recebi a maior, melhor e mais importante notícia que já recebi. Minha esposa estava grávida. Nada podia me preparar para a jornada, da gravidez até agora, quando a nossa Laura já está com 24 dias de vida, modificando completamente a nossa rotina.

Vai levar alguns posts, mas acho importante compartilhar o que vivi nesse período, e talvez agora seja a melhor hora para começar.

Quando você é homem e vai ser pai, a responsabilidade sobre sua esposa é gigantesca, desde a notícia até o nascimento, você é o suporte físico e psicológico da sua esposa. É uma tarefa hercúlea, mas o caráter de um homem que apoia a esposa enquanto ela espera sua prole é definido por sacrifício, presteza e empatia.

A gravidez balança todo o físico e psicológico da mulher. Pudera, dentro dela um novo ser humano está sendo criado. Você vai passar por altos e baixos, por reclamações e surpresas, por alegrias intensas e stress intenso. Mas acredite, nada disso é páreo para o que vem depois.

Para mim, pessoalmente, a pior parte da gravidez foram os primeiros 5 meses. A minha esposa é magrinha, de estatura mediana, mas mignon mesmo. Linda, inclusive. Ocorre que enquanto a Laura ainda era um feto, pesando menos de um quilo, a barriga continuava praticamente a mesma, e nenhum sinal externo do desenvolvimento da nossa bebê era visível. Isso é angustiante e me causou stress tremendo. Eu esperava ansioso pela próxima consulta com ultrassom, e perdi noites de sono pensando se tudo estava bem, até dezembro, quando iniciaram os primeiros chutes e movimentos. Alia-se a isso os desconfortos da esposa, e um coquetel de impotência se forma. Enjoo, vômitos, doenças (pegou duas viroses e um resfriado) sem poder usar remédios. Quando a esposa convalescia, coube preparar refeições, cuidar dela, prestar todo o atendimento e atenção necessário, todo o tempo. Sem exceções. O psicológico da gestante é seu gestor. Tudo que acontece psicologicamente com ela pode afetar sua saúde, e consequentemente, o desenvolvimento do bebê.

A partir daí, aconteceu uma coisa interessante. Antes era angustiante não saber nada sobre o desenvolvimento do bebê, e agora haviam sinais claros de seu crescimento. Todos os exames estavam retornando normais, a saúde do bebê estava muito bem. Agora, os sinais externos da gravidez afetavam o bem estar da esposa. Inchaço, cansaço, roncos, desconforto... Isso se arrastou até o final. Eu feliz com o desenvolvimento da nossa pequena, e a esposa sofrendo com os sintomas. Angustiante, já que eu esperava os sinais enviados pela nossa pequena na barriga, mas tinha até receio de comentar, já que alguns desses sinais causavam terríveis sintomas na mamãe.

Eu li bastante durante a gravidez, sobre tudo, bebês, mães, cuidados. No final, a lição mais importante dos livros foi: você não serve para grande coisa. Quando digo "você", me refiro ao pai. Não atrapalhar é a maior ajuda que um pai pode oferecer. E embora seja uma negativa, não atrapalhar é também modificar completamente sua rotina para adequar a nova dinâmica. Isso inclui atribuições positivas. Os pequenos "deslizes" que poderiam acontecer com um casal jovem e com tempo e empolgação nas mãos podem causar stress intenso na conturbada mudança que envolve um casal de pais com um recém nascido.

As tarefas que antes eram executadas pela esposa integralmente, seja ela do lar ou trabalhando fora, não são mais exclusividade dela. A barriga atrapalha sim, muda o centro de gravidade. O pai deve assumir as tarefas domésticas, e para isso é necessário que ele se prepare durante a espera. Se envolva e descubra tudo que sua esposa faz com exclusividade, isso será totalmente carga sua, na eventualidade de uma cesárea (pela limitação imposta pela cirurgia) ou parcialmente (no caso de parto normal ou adoção).

As mudanças fisiológicas causam sensações estranhas na mulher. Choros incontroláveis, mudanças de humor, dúvidas repentinas. Ser positivo, assertivo e disposto é essencial. Não é fácil, você tem suas próprias dúvidas, suas inseguranças, mas acredite, isso tudo é irrelevante perante o que acomete a mulher. Então aperte os cintos, aguente firme e siga viagem.

22 de set. de 2018

Justiça e Direito

Hoje foram condenados, em Juri popular, 3 detentores de uma ideologia de ódio contra pessoas de certas raças, crenças e orientação sexual. Uma decisão inédita, histórica e comemorada por várias organizações.

Mas será que houve mesmo justiça? Nas palavras de Rui Barbosa: "A justiça atrasada não é justiça; senão injustiça qualificada e manifesta". Se passaram 13 ANOS desde o evento. É uma vida, e ainda tem apelação, inclusive, dois dos três réus desse julgamento responderão em LIBERDADE. E outro julgamento terá outros 9 réus. Que justiça é essa que, em um fato cheio de testemunhas, de extrema violência, leva uma década para dizer o Direito e ainda não acabou?

Nosso sistema judiciário parece carecer de BOM SENSO. Um menor apreendido com uma arma é solto no mesmo dia, sob responsabilidade dos pais. Preso novamente dias depois, é novamente solto em poucas horas. Onde está a justiça nisso?

Vivemos um direito positivista, sem margem para interpretações racionais, garantista e cego. Quem tem muito dinheiro e/ou poder não fica preso, com raríssimas exceções, que certos ministros do STF insistem em tentar eliminar. É um direito engessado, lusitano, onde se não está escrito, não vale, e se estiver escrito, não pode ser interpretado em nenhuma circunstância. Aí para tentar resolver o problema, se criam novas leis como se fosse brincadeira, enchendo nossos "códigos" de inúteis reafirmações menos genéricas.

Recursos intermináveis arrastam julgamentos por décadas, perdendo completamente a eficácia diante de uma situação traumática. As vítimas expostas durante todos esses anos, enquanto os algozes estão livres para ameaçar, dissuadir ou até terminar o que começaram. É triste ver que uma realização totalmente possível até para uma criança está totalmente distante de nosso judiciário.

A ideologia socialista, que culpa a sociedade por tudo, impera. Torna o indivíduo irrelevante em suas atitudes, sem considerar o caso concreto. Cria exceções sem fundamento que parecem ser destinadas a um computador: regras para todas as situações possíveis. Enquanto isso, julgadores e toda a máquina ficam a mercê de operadores que já se acostumaram com as nuances de um sistema que tinha tudo para dar certo, menos conexão com a realidade. Isso quando as pessoas não deixam a sua própria ideologia cegá-los para a realidade, defendendo quem Renato Russo definia como "O meu país e sua corja de assassinos covardes. Estupradores e ladrões".

Os direitos da maioria ficam sufocados enquanto uma minoria violenta participante de vários poderes paralelos domina os palcos da vida real. Nossas forças policiais, desamparadas diante da ineficiência estatal, tem poucas chances de ganhar esta batalha.

O pior é verificar a quase impossibilidade de mudança, já que é um problema cultural, herança mal aplicada em nosso gigantesco país. Um Estado onde leis são criadas e aplicadas por uma casta desconectada de experiências, agarrada a textos e discursos, com raríssimas exceções. Esta mesma casta receptáculo de milhares de privilégios, também totalmente fora da realidade em um país falido.

Resta, sinceramente, tirar o melhor proveito dessa situação, já que ela não vai mudar. E para isso temos que nos preparar, emocionalmente, para aguentar a enxurrada de disparates noticiados diariamente. E psicologicamente, para aprender a viver nessa estrutura da melhor maneira possível, enquanto parte das engrenagens desse sistema, e torcendo para as próximas gerações.

31 de ago. de 2018

Admiração e metafísica

Não me importo com a metafísica. As perguntas que ela responde me são estranhas, pois consideram especiais conceitos primordialmente humanos, por vezes falhos, e na maioria das vezes, irrelevantes. Considero que ela importa principalmente para dois grupos: os que querem justificar crenças, e os que querem encontrar conforto.


Eu não quero justificar nada. Eu quero conhecer. Eu também não me importo com o conforto, pois encarar de frente a realidade nua e crua é parte do que diferencia um adulto de uma criança. Portanto, estes conceitos filosóficos estilo: quem somos, de onde viemos, para onde vamos? Quando começam a responder transcendendo o mundo físico e nossa condição de primatas evoluídos conhecendo o cosmo, se tornam cansativos e sem sentido.

Isso não quer dizer que não admire a complexidade da condição humana, nem o mundo em que vivemos. Acho que a admiração do não conhecer, das perguntas cujas respostas nos colocaram em um século de tecnologia além dos limites, do conhecimento humano, cumulativo e desbravador, é muito melhor do que conhecimentos filosóficos que trazem divisão e discussões intermináveis, sem objetivo.

Por vezes vejo pessoas explorando questões sobre vida após a morte, OVNIs, fantasmas, espíritos, experiências transcendentes, que não sabem como o motor de seu carro funciona. Ou como a tecnologia consegue nos disponibilizar tantas facilidades. Tem na ponta da língua uma resposta doutrinária e totalmente sem fundamento sobre "almas", mas não sabem o motivo do céu ser azul. Sabem discutir "energias" (termo roubado da ciência e mutilado em seu significado), mas ignoram completamente o espectro electromagnético e suas maravilhas. Sabem discorrer infinitamente sobre teologia, destino, adoração, mas ignoram vários aspectos sobre como o mundo ao seu redor funciona.

E essas mesmas pessoas apoiam-se nos ombros dos gigantes que pesquisam as maravilhas que tornam nossa vida moderna mais fácil para bradar impropérios contra quem criou as ferramentas que usam. Ignoram aspectos importantes da ciência que nos permitem viver mais e melhor em favor de crenças ridículas que colocam em risco vidas apoiando-se em conceitos obsoletos ou derrubados. É algo que ameaça ruir as estruturas que criamos ao longo dos anos e nos permitiu viver mais, com mais saúde, devido a uma visão de mundo limitada e crenças dogmáticas. É se acostumar à segurança proporcionada por séculos de conhecimento acumulado, ao ponto de começar a questionar esse conhecimento. É estranho.

Eu admiro a curiosidade, louvo a coragem para questionar nosso mundo não com perguntas cujas respostas alimentam o egocentrismo de nossa espécie, mas aquelas que nos explicam como o mundo funciona e nos permitem dominar esse mundo, moldá-lo, extrair dele o que precisamos, entendê-lo, preservá-lo e passar tudo isso adiante.

24 de abr. de 2018

Oportunidades

Venho acompanhando discussões sobre modelos político-econômicos algum tempo em grupos onde vale a pena ler os comentários. Vi vários argumentos sobre socialismo, capitalismo, economia, sociedade. Vale a pena ler bastante sobre isso para aumentar o seu entendimento do que acontece no país e tornar-se um cidadão mais consciente. No entanto, a Internet é terreno fértil para a bagunça da discussão binária e ignorante, e portanto, devemos exercer cuidado.

Um argumento constante para a utopia do socialismo é a desigualdade. Essa diferença entre as pessoas é exemplificada na maioria dos argumentos por falta de oportunidades iguais. Mas o que é uma oportunidade e como ela se constrói? O que faz alguns indivíduos terem sucesso e outros nem tanto? Em uma jornada mental (e não acadêmica), tentei achar um ponto em comum que dividisse esses grupos, e de acordo com minha própria experiência tentar justificar as disparidades sociais existentes.

Para o modelo funcionar, precisamos desconsiderar alguns fatores. Um deles é a desonestidade. Todos sabem que em um modelo social falho, a desonestidade pode, sim, compensar. O crime pode abastecer de recursos gerações inteiras e criar entidades que sustentarão por séculos um poder econômico. É só ver as empresas que auxiliaram, apoiaram ou simpatizaram com o movimento nazista e suas posições atuais. Outro fator a ser desconsiderado são cargos privilegiados também em um sistema político econômico que considera o voto um salvo conduto para privilégios excessivos, como ocorre com nossos deputados e senadores. Vamos falar de pessoas normais, de todas as classes, buscando um denominador comum. Também vamos desconsiderar o fator sorte. Sorte, acaso, acidentes bons ou ruins, não farão parte desta análise em primeiro plano. Elas podem se encaixar posteriormente, mas a princípio não serão determinantes. Também vamos desconsiderar alguns aspectos subjetivos, e considerar outros, de forma a mitigar diferenças advindas de situações extremas.

Então vamos analisar algumas pessoas hipotéticas.

Alguém que nasceu em "berço de ouro". Esta pessoa nunca passou fome. Teve acesso à educação privada de qualidade e uma estrutura familiar que lhe provia todas as suas necessidades, até as mais supérfluas.

A classe média, filhos de trabalhadores que com seu suor e empenho construíram um patrimônio capaz de prover o básico e manter seus filhos estudando, além de contribuir para os primeiros anos profissionais.

Uma pessoa desfavorecida. Eles não tem acesso ao básico e por vezes passam necessidades. Dispõe de um fraco colchão social que mal e mal cobre o suficiente para sobreviver. Seus pais podem trabalhar de sol a sol mas não conseguem mover o intransponível muro de desigualdade que os separa de uma vida mais digna.

Qual é o fator compartilhado por estas pessoas? O que, dentre tantas diferenças, pode ser um aspecto comum? Não é fácil, mas é óbvio. Estas pessoas nasceram. Sim, estas pessoas tem pais. Estes podem ser distantes, desconhecidos, mas biologicamente falando, consciente ou inconscientemente, um casal decidiu ter filhos, e estes são o resultado desta decisão. Todos somos filhos.

Muito do que você é veio de seus pais. Se não veio pelo convívio e experiência, veio pela genética. E aqui não excluo casais adotantes, mas removo eles da equação por motivos que se tornarão óbvios adiante.

Ter filhos é uma decisão. E não deveria ser uma decisão fácil como fazer sexo. Mas é. Isso mesmo, ter filhos, para muitos casais, é simplesmente uma consequência do prazer sexual, sem maiores implicações. Contraceptivos são baratos, acessíveis socialmente e disponíveis para qualquer um que os procure. Camisinhas e anticoncepcionais femininos estragam esperando consumidores em postos de saúde e o nosso SUS oferece várias opções contraceptivas.

Quando um casal tem um filho, já determinou certos aspectos da vida da criança pelo simples fato de ter planejado ou não a concepção. Aí já deve ter ficado claro o motivo da adoção ter sido desconsiderada antes: adoção é uma decisão consciente. Tão consciente (e fiscalizada) de fato, que é muitas vezes mais difícil que a própria maternidade biológica, que pode ser apenas uma consequência. Um casal que planeja ter filhos, considerando os aspectos financeiros, emocionais e sociais, já garante ao seu descendente uma estrada menos árdua na vida, mais oportunidades, pautadas por uma estrutura pensada para receber uma criança. A decisão consciente de ter filhos também influencia no psicológico dos tutores, preparando-os para as partes difíceis de se criar um ser humano. O que quero dizer é: filhos que nascem dessa forma terão melhores oportunidades. E isso não é sorte, é uma decisão dos pais. Ainda, um casal que não planeje especificamente, mas possua a estrutura necessária, pode simplesmente se dar o luxo de confiar no acaso, e ainda assim, seu rebento teria os confortos e condições necessárias para se desenvolver plenamente.

Por outro lado, que condições adolescentes grávidas poderão dar à seus filhos de se desenvolverem? Que responsabilidade é essa que, diante de uma situação já penosa, coloca na equação um ser humano necessitado de atenção, cuidado e chances para se desenvolver plenamente? Em uma sociedade ignorante, mais e mais filhos se encontram nessa situação, totalmente sem culpa. Eles estão fadados à, no mínimo, ter que se esforçar muito mais do que os outros. No máximo, tomar as mesmas decisões e perpetuar esse ciclo. Os "Joaquim Barbosa" são raros, exceções que confirmam a regra, já que sua batalha foi muito mais árdua do que a de qualquer pessoa com mais oportunidades. Seus filhos sem dúvida não se depararão com tamanhas agruras, e aí vem outro ponto que merece comentário.

Herança é "oportunidade"? Eu pessoalmente acho que não. Um lar estável, uma renda compatível, acessos sem excessos não são "privilégios". São consequências de uma luta diária, talvez não travada pelo beneficiado, mas por seus tutores. Frutos do trabalho não são vergonha a ser estampada, são vitórias a serem exaltadas por garantir às futuras gerações tranquilidade para chegar a maiores alturas ou tão alto quando as anteriores.

Oportunidades vêm de sorte, sim, mas também vem de esforço individual e de uma base pré-disposta que auxilie na busca da excelência. Os dois fatores podem ainda vir juntos, mas o esforço individual sem base é um esforço magnânimo, e uma base fantástica sem o esforço individual desconstrói aos poucos o que foi conquistado. E a pergunta que fica: achamos os responsáveis, agora, o que fazer? E eu respondo: nada. Impossível tocar nesse assunto sem receber diversas críticas. Não há como regular um direito humano. Aceitamos então esta situação, mas creio que, se pensar um pouco, quem fizer esse esforço mental acaba por não acreditar mais que os privilégios e oportunidades (ou sua falta) sejam totalmente culpa da sociedade.

17 de abr. de 2018

Vitórias

O que é uma vitória? É sair vencedor em uma contenda contra um algoz, o inimigo. Algo a ser celebrado e admirado, sem dúvida! Contos de vitórias lendárias na arte são fonte constante de entretenimento e provocam admiração e inspiração.

Quando eu penso em vitórias no atual contexto, no entanto, eu vejo que o foco mudou. Antes o inimigo era externo, visível e claramente definido. Até hoje ainda existe quem acredite neste conto: que existe um inimigo a ser combatido, e da derrota deste restará um mundo utópico melhor. Hoje em dia o maior inimigo nos fita, provocativamente, todo dia, quando nos olhamos no espelho.

E as vitórias, essas mudaram também. Emagrecer é uma vitória, ficar saudável através de exercícios, conquistar um título acadêmico, superar os limites impostos por nós mesmos passou a ser vitória maior. A auto-ajuda cresce vertiginosamente, e o maior motivo é que nos tornamos nossos maiores inimigos. A preguiça, aliada ao entretenimento praticamente infinito, nos transforma em sedentários. O fracasso eminente a cada passo nos impede de buscar novas colocações acadêmicas e profissionais. A rotina nos entorpece e impede a busca da felicidade. Não essa felicidade radiante dos filmes. A menor, mais escondida, felicidade de estar vivo. A vida pulsante, a descoberta, a curiosidade e o fascínio.

Não estou dizendo que devemos nos dedicar à uma busca constante. A felicidade acontece por acaso e a cada momento. Basta prestar atenção.

E talvez comemorar menos as vitórias contra si mesmo. Afinal de contas, se você é seu pior inimigo, talvez seja a hora de entrar em uma trégua?

As redes sociais nos bombardeiam com pessoas radiantes, com energia de sobra, totalmente diferentes de muitos de nós em tantos níveis. Uma vitrine constante das vitórias que não obtivemos sobre nós mesmos. Uma lembrança sempre presente das derrotas que sofremos pela apatia, e dos limites que impomos à nós mesmos pois a mente conformada é uma mente tranquila.

Mas pense bem. Ninguém é igual. Apesar da mídia nos impor uma imagem ideal, inalcançável, editada e invejável, você não precisa ser nada daquilo.

É sempre bom investir em você mesmo, e aí se encontra o grande equilíbrio que parece ter se perdido entre as propagandas. Nem tudo é possível se você se dedicar. Você não é igual a ninguém. As capacidades e aptidões físicas e mentais variam tanto entre indivíduos que é impossível comparar pessoas. Não existe "bala mágica", tratamento milagroso que funcione em todos os casos, programa de treino que qualquer um possa usar. A cultura da auto-ajuda, aliada a nosso momento "pós-verdade" torna muitas pessoas deprimidas e desiludidas. A régua passada sobre os pontos fracos e fortes do indivíduo acaba com o psicológico, e as vezes o físico, e resulta em seres humanos doentes.

Fazer o seu melhor e encontrar motivação não é fácil, mas não é impossível. Se conformar é bem mais fácil. Ainda assim, não importa o seu melhor, não vai ser possível ser perfeito, ou ser a imagem que você quer pois foi instruído assim por um bombardeio alarmista de mídia. Se conforme em ser o melhor que você conseguir, e busque a felicidade nos pequenos e incessantes momentos vividos.

17 de jul. de 2017

36 anos e mais um semestre

Minha vida acadêmica não foi um completo desastre. Veja bem, completo. Um desastre ela foi, sem dúvida nenhuma. Muito dinheiro, tempo e esforço foram investidos em 3 cursos superiores, e nenhum deles foi concluído. Não foi completo (o desastre) pois muitas lições foram aprendidas, muita experiência foi ganha e não estaria onde estou não fosse tudo ter acontecido exatamente como aconteceu.

E mais um aniversário passou. Talvez pelo ano de 2017 ser especial, esse ano eu tive "consciência" da passagem do tempo. Corpo mais frágil, mente mais inquieta. Adentro o último semestre do meu curso. Será? Eu, com 36 anos na cara, finalmente vou ter um diploma universitário? Sim. Muito esforço no Trabalho de Conclusão de Curso, muitas ideias, aulas e provas ainda, mas eu tenho convicção que dessa vez vai. Primeiro pois as coisas estão encaminhadas. O projeto do Trabalho de Conclusão foi apresentado com sucesso, implementadas mudanças, melhorada a metodologia. O desenvolvimento já tem espaço de tempo separado, férias do serviço planejadas para dedicar randômicas horas diárias a concluir o projeto. As coisas estão andando como se fossem terminar, e falta bastante tempo. Ao contrário das outras vezes, quando faltar mais de uma semana era motivo para não planejar nem fazer nada. Sim, eu tive minha parcela fatal de culpa no fracasso acadêmico.

Faltam 100 dias letivos.